Estava numa verdadeira encruzilhada. Dos diversos sinais que encontrava poucos sabia interpretar, se é que sabia interpretar algum!
Afastado voluntariamente da circulação, refugiado nas teias que foi construindo, já não sabia ler e decifrar as distintas pistas que lhe iam colocando no caminho. Tinha sobretudo dificuldade em distinguir o que verdadeiramente importava e o que, em essência, lhe queriam transmitir. Mas, o que seriamente o mortificava era a possibilidade de se magoar ou magoar alguém.
Fiel a princípios que provavelmente já não estavam em uso, crente na bondade das suas convicções, não percebia que muita coisa havia mudado e que (para o bem ou para o mal), o seu mundo estava em desconstrução.
Os medos que o assaltavam eram os mesmos com que sempre convivera, mas agora pareciam que tinham outra dimensão, outros contornos e outros significados.
Tinha que encontrar respostas, se pretendia sair do labirinto onde se encontrava. Havia muitas respostas que só ele as podia dar, mas também lugar para as ajudas que outros lhe dispensassem.
O problema – pensava – era que os caminhos pareciam cada vez mais difíceis de trilhar, as curvas continuavam cada vez mais apertadas e a estrada do destino não tinha sinalização.
Se o queriam ajudar precisava, com urgência, que lhe explicitassem as sinaléticas, que lhe descodificassem as mensagens, que lhe clarificassem as veredas.
De nada valerá acenar-lhe apenas com palavras caridosas e piedosas intenções!
terça-feira, 17 de novembro de 2009
sábado, 31 de outubro de 2009
Labirinto
Agora tinha todo o tempo para si e, no entanto, nada conseguia fazer. Uma imensa preguiça tinha-o invadido e dele tomara conta. Não entendia os novos contornos da sua vida, se àquilo poderíamos chamar vida. Vagueava ao sabor de ventos que não conhecia nem, muito menos, dominava. Incapaz de dar um rumo à sua vida nem procurava encontrar explicação para aquele vazio. Era nesse ciclo vicioso que cogitava todos os dias sem, entretanto, encontrar qualquer resposta ou saída. Quando procurou encontrar uma solução avalizada disseram-lhe que vivesse mais a vida e pensasse menos. Ficou novamente perdido no seu próprio labirinto, incapaz encontrar uma saída com alguma luz. É certo que também não caíra no abismo, mas continuava sem encontrar uma porta que lhe permitisse respirar algum ar puro. Avesso a cedências sem justificação, ficava enleado nas suas meditações reconhecendo a impossibilidade de, sozinho, vencer os obstáculos que, em vez de ultrapassar, parece que colocava no seu caminho. Perdido na encruzilhada em que todos os dias se envolvia, não reparava que a vida se ia fechando cada vez mais e mais. A porta estava lá, mas ele não a encontrava. Até quando iria ficar no labirinto?
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
REENCONTRO
Combinámos o encontro junto à rotunda. Iríamos recordar situações com mais de 35 anos. Tempos que nos marcaram: uns bons, outros maus. Tinha sido, por exemplo, no carro dele que tive o meu primeiro acidente de automóvel. Por causa de uma raposa.
Eu tinha expectativas sobre como ele estaria passados estes anos todos. É possível que com ele acontecesse o mesmo. Imaginava-o gordo, vestido em loja chique, conduzindo um Mercedes. Nada mais errado! Quando um carro velho, cuja marca não consigo recordar, se aproximou e parou junto de mim, é que deduzi que seria ele. Se o visse na rua, possivelmente não o teria reconhecido. Estava magro, muito magro, a roupa não era de marca e o carro já tinha idade para estar na sucata. Ao entrar, verifiquei o estado descuidado que apresentava. Comecei a ficar angustiado com o pressentimento de que aquela visão poderia ser o prenúncio de uma vida difícil e complicada. Durante o café, confirmei as primeiras impressões e constatei, com sofrimento, as suas dificuldades. Almoçámos e passámos a tarde recordando os nossos tempos da tropa. Sobre a sua vida nada lhe perguntei, com receio de o ferir. Contou-me o que quis, como quis. Do que me foi relatando, creio que pouco posso reproduzir. Parece que o meu cérebro se recusou a registar os diversos acontecimentos de que me ia dando nota. Sobre uns, confesso que duvidei; sobre outros, penso que me mentiu. Tudo isto me atormenta. Tudo isso fez e faz aumentar a minha angustia.
Como foi possível atingir a situação em que se encontra? Que voltas a vida lhe deu? Que voltas deu ele à vida? Que fez ele com o futuro promissor que tinha nos anos 70?
Já vai no terceiro casamento e não sei se em algum deles foi feliz. Recordo, com algum estremecimento, que não fui ao seu primeiro casamento porque eu não tinha fraque (nem o quis alugar) e era condição para poder estar presente. Onde param todas essas fantasias?
Amigo, que caminhos te levaram à actual situação ?
Eu tinha expectativas sobre como ele estaria passados estes anos todos. É possível que com ele acontecesse o mesmo. Imaginava-o gordo, vestido em loja chique, conduzindo um Mercedes. Nada mais errado! Quando um carro velho, cuja marca não consigo recordar, se aproximou e parou junto de mim, é que deduzi que seria ele. Se o visse na rua, possivelmente não o teria reconhecido. Estava magro, muito magro, a roupa não era de marca e o carro já tinha idade para estar na sucata. Ao entrar, verifiquei o estado descuidado que apresentava. Comecei a ficar angustiado com o pressentimento de que aquela visão poderia ser o prenúncio de uma vida difícil e complicada. Durante o café, confirmei as primeiras impressões e constatei, com sofrimento, as suas dificuldades. Almoçámos e passámos a tarde recordando os nossos tempos da tropa. Sobre a sua vida nada lhe perguntei, com receio de o ferir. Contou-me o que quis, como quis. Do que me foi relatando, creio que pouco posso reproduzir. Parece que o meu cérebro se recusou a registar os diversos acontecimentos de que me ia dando nota. Sobre uns, confesso que duvidei; sobre outros, penso que me mentiu. Tudo isto me atormenta. Tudo isso fez e faz aumentar a minha angustia.
Como foi possível atingir a situação em que se encontra? Que voltas a vida lhe deu? Que voltas deu ele à vida? Que fez ele com o futuro promissor que tinha nos anos 70?
Já vai no terceiro casamento e não sei se em algum deles foi feliz. Recordo, com algum estremecimento, que não fui ao seu primeiro casamento porque eu não tinha fraque (nem o quis alugar) e era condição para poder estar presente. Onde param todas essas fantasias?
Amigo, que caminhos te levaram à actual situação ?
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Teoria e prática
Cada vez mais, e com mais frequência, se instala perante os nossos olhos a descomunal diferença entre o que dizemos e o que fazemos. Já não são apenas os políticos ou os vendedores de sonhos, não: somos todos nós! Uns mais que outros, claro.
O que se passa à nossa volta, na nossa casa, com os nossos amigos, se bem o analisarmos, é um completo desfasamento entre o que afirmamos e aquilo que, na prática, realizamos. Uns e outros não nos damos conta deste fosso que cada dia se vai alargando e aprofundando mais. Começando nos mais altos cargos da Nação e descendo até ao mais humilde dos seres mortais, o que se encontra como reguladora e assustadora "normalidade" é este absurdo abismo.
Como alterar este estado de coisas? Como chamar à realidade cada um de nós?
terça-feira, 19 de maio de 2009
A estranheza da vida
“Aproveita os momentos de descanso e medita na estranheza da tua vida”, dizia-nos uma voz fardada, em Setembro de 1969, junto à foz do rio Lizandro. Nunca mais esqueci tal frase. Desde esse dia que a estranheza da vida me persegue e atormenta. De muitas vidas!
Apesar de continuamente meditar, não encontro lenitivo para mitigar ou ultrapassar muitos dos percalços que, nesta vil e triste vida, me são colocados. E, não descanso!
Longe (muito longe!) de me considerar um ser exemplar, persigo caminhos de rectidão e honradez e, quando olho à minha volta, são poucos os companheiros que encontro nesta jornada. De presunção e água-benta, também tenho a minha dose… mas, quando questiono a minha vida as respostas não me provocam nem insónias nem inquietação.
Atravessamos um período de profunda perplexidade.
Oiço a rádio e a televisão. Leio os jornais. Em nenhum destes meios encontro isenção, pluralismo ou rigor de informação. Hipotecados a interesses inconfessados, tentam fazer de nós tolos ou, pior que isso, querem orientar-nos para as suas sórdidas conjecturas de vendilhões do templo.
E, a estranheza continua…
Conheço, todos conhecemos, o que para aí vai em matéria de vigarices, trafulhices e corrupção. Basta querer ver! Os novos colarinhos brancos que por aí pululam (e se juntam aos velhos colarinhos brancos), pavoneiam-se nos mais que evidentes e provocantes sinais exteriores de riqueza. Muitos deles enriqueceram da “noite para o dia” e ninguém os questiona ou averigua. E, dizem-se virtuosos!
A corrupção ameaça e cresce; cresce e ameaça. Neste ciclo infernal, parece que todos estamos ameaçados e acorrentados. E, o que é ainda mais chocante é a forma como estes vigaristas, trafulhas e corruptos se apresentam: todos se declaram de consciência tranquila. Que consciência? Esta gentinha não tem consciência…Mas tem bons advogados!
Pobres vidas, medíocres criaturas, que será delas quando todos meditarmos na estranheza destas vidas e acordarmos?
“Aproveita os momentos de descanso e medita na estranheza da tua vida”, dizia-nos uma voz fardada, em Setembro de 1969, junto à foz do rio Lizandro. Nunca mais esqueci tal frase. Desde esse dia que a estranheza da vida me persegue e atormenta. De muitas vidas!
Apesar de continuamente meditar, não encontro lenitivo para mitigar ou ultrapassar muitos dos percalços que, nesta vil e triste vida, me são colocados. E, não descanso!
Longe (muito longe!) de me considerar um ser exemplar, persigo caminhos de rectidão e honradez e, quando olho à minha volta, são poucos os companheiros que encontro nesta jornada. De presunção e água-benta, também tenho a minha dose… mas, quando questiono a minha vida as respostas não me provocam nem insónias nem inquietação.
Atravessamos um período de profunda perplexidade.
Oiço a rádio e a televisão. Leio os jornais. Em nenhum destes meios encontro isenção, pluralismo ou rigor de informação. Hipotecados a interesses inconfessados, tentam fazer de nós tolos ou, pior que isso, querem orientar-nos para as suas sórdidas conjecturas de vendilhões do templo.
E, a estranheza continua…
Conheço, todos conhecemos, o que para aí vai em matéria de vigarices, trafulhices e corrupção. Basta querer ver! Os novos colarinhos brancos que por aí pululam (e se juntam aos velhos colarinhos brancos), pavoneiam-se nos mais que evidentes e provocantes sinais exteriores de riqueza. Muitos deles enriqueceram da “noite para o dia” e ninguém os questiona ou averigua. E, dizem-se virtuosos!
A corrupção ameaça e cresce; cresce e ameaça. Neste ciclo infernal, parece que todos estamos ameaçados e acorrentados. E, o que é ainda mais chocante é a forma como estes vigaristas, trafulhas e corruptos se apresentam: todos se declaram de consciência tranquila. Que consciência? Esta gentinha não tem consciência…Mas tem bons advogados!
Pobres vidas, medíocres criaturas, que será delas quando todos meditarmos na estranheza destas vidas e acordarmos?
sábado, 21 de março de 2009
PALAVRAS
Parece cada vez mais evidente a crise de valores que atravessa a actual sociedade. A todos as horas, de todos os dias, somos fustigados por noticias de corrupção, compadrio ou outras "engenharias" de "passar-a-perna", praticadas por aqueles que deveriam ser exemplos de seriedade, honestidade e transparência. A fazer fé no dizem!
Mas, como palavras leva-as o vento, depressa esquecem o que proferem. Juram a todo o momento que, com eles, a nossa vida será um paraíso. Hipócritas de colarinho branco vão enganando com palavras bonitas as suas feias acções. O problema é que os destinatários dessas mensagens continuam a acreditar nas aparências e esquecem rapidamente as vigarices e as falcatruas dessas criaturas sem escrúpulos e sem honra. Honra!, eu disse honra?, estas 5 letrinhas que eles desconhecem ou abominam.
E, no entanto, lá vamos na conversa e nas palavras bonitas. E votamos ...
Quando iremos acordar?
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